Esqueçam as letras deste disco, esqueçam os esterótipos estilísticos atribuídos a esta banda, esqueçam a história de vida deste vocalista. Concentrem-se na música, nas canções, na originalidade e inspiração deste álbum que, apesar da condições em que foi feito é capaz de de ser dos melhores álbuns rock de todos os tempos, para além, claro, dos gostos subjectivos de cada um.
Os temas são autênticas obras primas em que a muralha de som das várias pistas de guitarra se enreda com a voz e com os ritmos arrastados, criando uma sensação inebriante e, ao mesmo tempo, reconfortante. Numa palavra: psicadelismo. Numa vertente hard, é certo, mas isto é música para libertar os sentidos e soltar a mente por viagens intermináveis a territórios desconhecidos. O álbum acaba por ser paradoxal em vários aspectos: apesar das letras serem bastante depressivas, existem momentos extemamente belos e a construção sonora de paisagens verdadeiramente idílicas; por outro lado, apesar dos Alice In Chains estarem conotados com o estilo rock/grunge e a produção acentuar esse aspecto pesado e massivo, este trabalho acaba por ser, na prática, extremamente calmo e relaxante. Às primeiras audições pode até parecer bastante lento comparado com a maior parte dos grupos do espectro hard'n'heavy.
Os estereótipos rock'n'roll life style percorrem o disco, as referências a Hendrix, Sabbath e até Pink Floyd. As substâncias ilícitas (leves ou menos leves) fizeram parte do processo de composição, esse aspecto é bastante nítido ao ouvir. No entanto, a grande magia do disco está no facto de, sem nos aperebermos, à medida que as audições aumentam mais reconhecemos a força destes temas: desde os mais acessíveis - Would?, Them Bones - até aos hinos - Rooster (que conta a história de um soldado no Vietname), Junkhead - passando pelas composições únicas à la Alice In Chains como, Down In A Hole (o tal "calmo-pesado"), Rain When I Die (um autêntico caldeirão de especiarias sonoras), Dirt, ... enfim uma imensa paleta com várias tonalidades.
Uma coisa é um dado adquirido às primeiras audições: estamos perante um dos melhores vocalistas de sempre da música moderna. A voz, assim como a criação das melodias vocais e, ao mesmo tempo, a forma como foi gravada, em várias pistas e em camadas sucessivas, dão um som único a este disco, passando as cordas vocais a ser um autêntico instrumento - como um sintetizador por exemplo - tal a sua musicalidade e a diversidade das suas nuances. Juntamente com as vocalizações de Layne Staley, soma-se a guitarra de Jerry Cantrell, um mago da guitarras que prepara poções mágicas feitas de distorção e efeitos wha-wha.
As influências que este álbum deixou são imensas, tanto em novos agrupamentos, como Three Doors Down, Nickelback, Sevendust, etc. como até inspirou alguns trabalhos mais recentes de consagrados, como os Metallica e até o próprio Ozzy Osbourne.
Para a memória do público português, fica aquele concerto intenso no Superock de 2006, num dia abafado e sob um forte aroma "marroquino". E como diz o tema: "I like to fly...."
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